5h da manhã, todo dia, há 6 anos
Eu acordo às 5h. Cecília dorme até às 7h. Nessas 2 horas, bordo 3 panos de prato. Às vezes consigo terminar uma toalha de mesa se a encomenda for pra semana. Faço isso desde que ela nasceu. Foram 6 anos sem um dia de folga. É o que paga a luz, o gás, a feira quando a aposentadoria acaba no dia 20.
O dia que minha filha não acordou
Cecília nasceu no dia que minha filha morreu. O pai dela olhou pra menina e disse que não conseguia ficar. Culpou ela. Uma criança de horas. Eu tinha 58 anos, aposentada há 3. Pensei: "Maria, você criou uma filha sozinha. Vai criar a neta também." E criei. Mas agora meu corpo está pedindo uma pausa que eu não sei como dar.
Cecília pergunta por que vovó não levanta mais
Antes eu carregava ela no colo. Levava pro banheiro, trazia de volta, colocava no sofá pra assistir desenho. Agora a orientação é clara: não fazer força. A mobilidade na perna esquerda está comprometida. Tem dia que não consigo ficar em pé mais que 10 minutos. Cecília não entende. Ela tem 6 anos. Só sabe que a vovó mudou.
R$ 26.500 em 8 meses. Faltam R$ 50.000 em 47 dias.
Eu vendo tapete a R$ 35. Pano de prato bordado a R$ 18. Em 8 meses, consegui juntar R$ 3.200 do meu trabalho. Mais R$ 26.500 que 455 pessoas escolheram reunir. A próxima etapa custa R$ 76.500. Se eu não completar em 47 dias, volto pra fila pública. São 11 meses de espera ou mais. A médica foi direta: "Dona Maria, a senhora não tem 11 meses. A mobilidade que a senhora perdeu, pode não voltar."
R$ 50 compram 1 semana da rotina que eu ainda consigo manter com a Cecília. R$ 150 fecham 1 mês de cuidados antes que a janela se feche.
Mensagens de apoio
Ana Paula Ferreira
Eu lembro da minha avó bordando pra complementar a renda. A Maria tem o mesmo olhar cansado que eu via nela. Ninguém deveria ter que escolher entre cuidar da neta e cuidar do próprio corpo. Tô dentro dessa semana.
Roberto Silva
45 anos trabalhando e agora ela tá contando os dias pra não perder a mobilidade de vez. Isso não é justo. A Cecília precisa da vovó andando. Escolhi R$ 150 — um mês dessa rotina que ela ainda consegue manter.
Marcos Pereira
A parte que mais pega: "A mobilidade que a senhora perdeu, pode não voltar". São 47 dias. Não é pra pensar, é pra agir. Toda família merecia ter alguém que olha pra eles como a Maria olha pra Cecília.
Carla Mendes
Minha mãe também borda pra fora. Eu sei quanto custa cada pano de prato, quanto tempo leva, quantas horas sem levantar da cadeira. A Maria trabalhou a vida inteira — ela não pode perder a chance de andar só porque o prazo é curto.